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Quando vestimos a bata fora do consultório


MGFamiliar ® - Wednesday, July 15, 2020



Este texto remonta a um episódio que vivi poucas semanas após o despiste do autocarro na Madeira que fez quase três dezenas de mortos. Diz respeito a uma viagem de autocarro entre o Minho e o Centro, viagem essa que inicialmente seria feita de carro, mas que as circunstâncias forçaram a que fosse feita de autocarro.

Quando entrei no autocarro, achei o comportamento do condutor estranho. Parecia desorientado, agitado, verborreico. O meu instinto (talvez receio, olho clínico ou experiência pessoal) diziam-me que algo estava errado. Primeiro pensamento: este senhor está sob efeito de substâncias! Como estava enganada…

O autocarro estava lotado, maioritariamente com jovens com talvez pouco mais de 18 anos. Sentei-me e esperei, na esperança de que o condutor fosse outro e não aquela pessoa, com aparente alteração do estado mental, a transportar-nos durante quase 5 horas. Em pouco tempo percebi: seria ele.

Na ambiguidade entre o meu dever moral, o medo de fazer a viagem e a (falta de) coragem para me dirigir ao senhor – que nesta fase estava ainda fora do autocarro a gesticular e a falar com os pais dos miúdos sobre a sua “enorme dor de cabeça”, decidi: ia tentar impedir que o autocarro saísse.

Dirigi-me ao senhor e expliquei-lhe que não estava em condições de conduzir. Com isto, os pais insurgiram-se e apoiaram. O senhor, exausto, desorientado, prostrado, dizia que ia tentar levar o autocarro pelo menos até à estação seguinte, que o dia lhe estava a correr mal. Contou que já ao sair de Lisboa, às 7h da manhã, havia raspado num rail e que tinha uma imensa dor de cabeça. Um dos pais, um enfermeiro com quem já me tinha cruzado durante os estágios hospitalares, chamou o responsável da central. Foi contactado o chefe da empresa transportadora que insinuou “Quem aí tem autoridade para dizer que o senhor não está em condições de conduzir?” - ninguém importante: uma médica, um enfermeiro e uns quantos pais assustados.

O responsável da central decide então: “Se assim é, vou chamar o INEM”. E assim foi. Nos entretantos ficámos a conversar com o senhor, que explicou ter uma dor de cabeça que não o deixava pensar, que já havia feito medicação e que a mesma não passava com nada, e que tinha iniciado após “sentir um cheiro intenso estranho”. Red flag, campainhas a tocar e a minha consciência a pesar – o senhor estava em claro sofrimento e a primeira coisa que pensei foi que estaria sob efeito de substâncias…

O INEM chega, leva o senhor já a cambalear e peço ao enfermeiro para, por favor, me dar notícias. Espero pelo novo condutor para o autocarro e vou à minha vida.

No dia seguinte, por mensagem de texto, chegou a confirmação da minha suspeita. Um tumor do tamanho de um pêssego com características de agressividade a crescer no cérebro do condutor do autocarro, a sensação agridoce de naquela não-viagem ter potencialmente salvado mais vidas do que no resto da minha vida e o sentimento de pena daquele homem, que teria pouco mais de 40 anos e cujo futuro, estava certa, seria curto. E uma história para contar. Uma história que contei já dezenas de vezes na esperança de me convencer que fiz uma boa ação, mas que de cada vez que conto me deixa o desconsolo da impotência perante a fatalidade.

Este foi um dos momentos em que me apercebi que somos médicos dentro e fora do consultório e que podemos marcar a diferença se, sem medo e sempre com o objetivo de ajudar, não nos despirmos completamente da bata quando saímos do trabalho. Agora falta encontrar um equilíbrio entre o dever e o sossego, a disponibilidade e a tranquilidade.

Por Virgínia Laranjeira



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